Angústia e Depressão

Hamburguer x Angústia

Após a leitura de uma propaganda sobre a inauguração de mais uma hamburgueria vegana surgem algumas reflexões. Nada contra pessoas que optam por não consumir produtos de origem animal. Porém pergunta-se por que bolinhos fritos compostos por vegetais diversos são chamados de “hamburguers”. Isso reproduz uma experiência infantil, quando nossas mães escondiam o chuchu e a abóbora embaixo do feijão para que nós, crianças, comêssemos sem perceber. Qual seria o problema em assumir que a loja serve bolinhos de lentilha, soja ou aveia? Isso parece uma forma velada de preconceito contra os vegetais. Hamburguer vegano, carne de jaca, macarrão de abobrinha… e por aí vai.

O que isso tem haver com questões recorrentes como a angústia ou a depressão; que minam a vida de milhares de pessoas?

Nos dicionários aprendemos que conceito é a formulação de uma idéia por meio de palavras ou imagens, de um objeto concreto ou abstrato. Ora, quando conceitos e as palavras que os expressam têm seus significados alterados, quando quase nada é o que parece ser, já que muitas coisas têm nomes ou aparências que não correspondem à realidade, inconscientemente passamos a duvidar de tudo o que entendíamos como certo.

Novos produtos, novos conceitos e definições são constantemente introduzidos na nossa cultura, em tal quantidade e que nem sempre temos condições de elaborar adequadamente. A nova hamburgueria vegana faz pensar que muitas das nossas certezas mais prosaicas estão pouco a pouco sendo desconstruídas. Pois se até as coisas mais banais não correspondem à representação que fazíamos delas, o que se dirá das certezas guardadas no inconsciente, das quais temos acesso apenas relativo? Daí podemos pensar na angústia ou depressão daqueles que, diante dessas distorções cotidianas também apresentam dúvidas sobre si mesmos e se perguntam: quem eu sou realmente para além daquilo que deveria me definir, como meu nome, minha aparência, minha percepção do mundo e dos meus sentimentos?

A psicanálise nos ensina que o sujeito se constitui na linguagem. Assim, nossos sentimentos, emoções, percepções, experiências; são compostos e se definem na linguagem, e grande parte disso que nos funda esta inacessível, no inconsciente, ao qual só temos acesso eventual por meio dos sonhos, dos sintomas e em atos que nos escapam ao controle. Dessa forma, quando desestabilizamos nosso repertório linguístico, é possível que soframos uma instabilidade mais abrangente. E a psicanálise pode ser um caminho para a retomada do equilíbrio perdido.

​Fernanda P. Valente
CRP – 05-51891