A arte do bem querer-se

Vivemos num mundo em crescente e indefinido dinamismo, onde as relações são cada vez mais desvirtuosas, não havendo autorização moral para a construção de afetos, sejam eles compartilhados com o Outro ou simplesmente sentido em sua forma mais genuina.

A tecnologia desbravadora progride e permite os mais variados acessos à informação, sem filtro, com a intenção inicial de aproximar aqueles que jamais estariam próximos. Há uma cultura de likes e followers em que a popularidade é medida pela quantidade de interações, fakes ou não. Afinal, quem se importa se aquele perfil que te curtiu ou seguiu existe de fato? A importância está no impacto que os números elevados causarão no adversário do outro lado da tela. Sim, adversários porque tornou-se uma concorrência de visualizações.

Mediante esse panorama, levanto um questionamento: quantas curtidas essa pessoa tão amada por todos se dá? Ela seria sua própria seguidora, acompanharia seus próprios stories, apreciaria verdadeiramente sua vida tão manipulada pela busca da fama virtual?

Podemos perceber então uma constante ausência da prática do amor-próprio.  As pessoas não se conhecem mais e nem se permitem conhecer. O objetivo da exposição em uma rede social se limita a agradar o Outro e agradar-se fica de lado.

Fazendo alusão ao antigo jogo do bem-me-quer, malmequer, em que o individuo apaixonado, em sua grande maioria mulheres, devido aos estigmas da sociedade, retirava pétala por pétala de uma flor buscando saber se a pessoa amada correspondia aos seus sentimentos, poderíamos, portanto, trazê-lo aos dias de hoje, porém com outras regras. Implantar o bem-se-quer primeiro, fazer contato consigo, conhecer seus próprios limites para, a partir daí, importar-se com a qualidade daqueles que se aproximam, seja no mundo real ou virtual.

Ame-se primeiramente. Seja o grande amor da sua vida e deixe que transborde.

​Psicólogo Bruno Francisco da Silva
CRP 05/38192