Agosto Lilás: Relacionamento abusivo e o lugar da psicoterapia

Agosto lilás é o mês de combate à violência contra a mulher. É neste mês que a lei 11.340/2006, a Lei Maria da Penha completa seus 13 anos. Sabe-se que esta caminhada de enfrentamento à violência contra a mulher é longa e desafiadora, mas, não podemos deixar de comemorar os avanços que a luta das mulheres tem alcançado e continuar levando informação as mulheres.

Pensando em diversos casos de violência contra a mulher, mais especificamente a doméstica, é possível perceber que nem todos os relacionamentos iniciam de maneira violenta, muito pelo contrário, elas afirmam que os companheiros são carinhosos, românticos e atenciosos. Entretanto, com o passar do tempo elas vão sendo envolvidas em uma violência muito sutil e velada. Essa linha tênue entre o amor e a violência, é o que podemos chamar de relacionamento abusivo.

Relacionamentos abusivos são caracterizados quando o parceiro (geralmente o homem) controla a mulher, movido por um sentimento de posse, colocando-a no lugar de objeto- único e exclusivo. Controle no que se refere às suas roupas, suas amizades, os lugares que frequenta, o seu próprio dinheiro, ciúmes excessivo, invasão de privacidade (o companheiro possui acesso as redes sociais, senhas de celular, conta bancária), tentativa de minimizar a autoestima da companheira, como se ele fosse o único homem que a amasse, a fim de mantê-la sob seu restrito controle e olhar. Vale salientar que pessoas em relacionamentos homoafetivos, também estão suscetíveis a vivenciar comportamentos abusivos, quando uma das partes exerce controle e poder sobre o outro (a). Importante dizer ainda, que muitos relacionamentos abusivos culminam em outras agressões, que podem ser físicas, patrimoniais, sexuais, entre outras, e nesses casos a mulher pode acionar as Delegacias de Atendimento à Mulher- DEAM’s ou quaisquer delegacias.

Contudo, é difícil perceber que o relacionamento tem características abusivas, pois, ele vem mascarado pelo amor e pelo cuidado. Comumente as mulheres não conseguem discernir entre o amor- o que é de fato cuidado e a violência, por sua vez, marcada pelo excesso e pelo controle. Há aqui, uma romantização da violência, que é a tendência de naturalizarmos padrões de controle como “normais”, um bom exemplo sobre isso é a famosa fala “nossa você vai com essa roupa, está vulgar assim! Vai com aquele vestido que é mais comprido, você fica mais bonita.” A companheira, acreditando que esse movimento do parceiro está relacionado a preocupação e ao seu bem estar, cede. Cede novamente quando ele, sempre com a finalidade de controlar, pede gentilmente “amor me manda uma foto sua, estou com saudade. Quero saber como você está vestida hoje” ou “você está aonde, me manda uma foto para eu ver” ou “me manda um nude, prove seu amor por mim”. Essas falas, são naturalizadas, como preocupação, afeto, atenção, prova de amor, quando na verdade é uma forma sutil de violência psicológica. Está ligada a chantagem emocional, ao término da relação caso a mulher não faça, não ceda as vontades do companheiro e por aí segue uma longa sequência de comportamentos abusivos.

A medida que esses comportamentos abusivos vão se intensificando, a mulher vai perdendo sua identidade, deixando de fazer coisas que gosta, sua vida e sua rotina vão se voltando apenas para os interesses do parceiro. É aqui que ela vai adoecendo mentalmente, isolando-se do mundo e das pessoas que ama, é aqui que ela toma como verdade às investidas a sua autoestima e passa a acreditar que nenhum outro homem vai desejá-la. Neste momento, ela pode ou não ter consciência que vive em um relacionamento abusivo, o fato é, que o sofrimento psíquico está instaurado e em grande parte das mulheres, o dano a autoestima é enorme.

Quando a mulher toma consciência do processo de violência ou tamanho é o seu sofrimento, ela passa por um novo processo, que é tomada de coragem para buscar ajuda psicológica.

Muitas chegam a psicoterapia avaliando-se como culpadas pelo relacionamento não caminhar bem, outras buscam uma psicóloga (o) por estarem “enlouquecendo” frente a pressão moral e psicológica experimentadas diariamente, outras percebem que o comportamento do parceiro não é saudável, mas, não sabem como se colocar na relação. Variadas são demandas e cabe explicar que a psicoterapia clínica, visa auxiliar a mulher no processo de autoconhecimento, autopercepção das características abusivas às quais encontra-se submetida. Busca trazer à tona os padrões de repetição envolvidos na relação afetiva que ela estabelece atualmente e também nas anteriores, além da compreensão como ela se posiciona enquanto ser humano frente ao mundo.

 Em suma, a psicoterapia visa o autodescobrimento desta mulher, assim como, a ressignificação da situação vivenciada.

Falar cura.

Pâmella Rossy Duarte
Psicóloga – CRP 05/43478

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