Setembro amarelo: Precisamos falar sobre suicídio

A ocorrência de um suicídio muitas vezes é ocultada, seja no trabalho, escola ou no âmbito familiar. Sempre que possível a causa é atribuída a um fatídico acidente. A família entra num processo de negação, culpa ou vergonha e esconde dos conhecidos o verdadeiro motivo do óbito. É preciso tirar o suicídio da névoa que o cobre e lançar luz sobre suas causas. Precisamos, e muito, falar sobre suicídio, até mesmo para capacitar as pessoas a detectarem possíveis intenções suicidas nas pessoas que os rodeiam.

Primeiramente devemos desconstruir frases do senso comum tais como*:

– “Do nada ele se matou”. (geralmente há um razoável lapso de tempo entre a ideação e o ato)

– “Quem fala muito não faz”. (a maioria das pessoas fala claramente de sua intenção suicida antes do ato) 

– “Quem quer mesmo morrer, se mata; não adianta tentar ajudar”. (grande parte dos suicidas têm sentimentos ambivalentes, o desejo de por fim ao seu sofrimento passa tanto pelo suicídio como pela resolução sadia do seu problema)  

– “O risco passou, ele teve uma melhora de humor evidente”. (muitos suicídios ocorrem nessa fase de melhora repentina, quando a pessoa encontra energia para transformar sua ideação suicida em ato)

– “Suicídio é o tipo de coisa que não dá para prevenir”. (a quase totalidade dos casos poderia sim ser prevenida com tratamentos médicos e psicológicos)

– “Um suicida não desiste até conseguir”. (ideias suicidas podem retornar em alguns casos, mas na maioria das pessoas é apenas uma fase da vida, não serão permanentes)

As pessoas com poucos vínculos sociais, comportamento ambivalente, impulsivo ou rígido são as mais susceptíveis. São determinantes também fatores biológicos, psicológicos, sociais e culturais; isolados ou associados. Como exemplo temos os transtornos mentais, depressão, abuso de drogas e álcool, traumas sexuais, bullying, perdas (de emprego, de status, de patrimônio, aposentadoria, amorosa) entre os mais comuns. 

Um sinal de alerta que pode passar despercebido são frases recorrentes de menos-valia: “não sirvo para nada; não suporto mais; sou um fardo para minha família; de que adianta viver assim; os outros vão ser mais felizes sem mim, não sinto vontade, etc”.

E o que fazer caso perceba alguém da sua relação com sinais suspeitos? 

O ideal é conduzi-la a um profissional. Mas enquanto isso não for possível, uma atitude simples de prevenção que pode ser feita por qualquer um é ouvir a pessoa atentamente, sem interromper. Mostrar empatia e não tentar minimizar o problema. Se tiver clima, perguntar se ela pensa em suicídio. E com muito tato, avisar aos familiares e amigos, de modo que se estabeleça uma rede de apoio até que a pessoa receba o indispensável atendimento médico e psicológico.

*Fonte: Prevenção do Suicídio: Um Manual Para Profissionais de Saúde – ONU – 2000

​Fernanda P. Valente
CRP: 05-51891