COVID 19: Como anda sua saúde mental diante de tantas incertezas ?

Desde o final do ano de 2019 o mundo foi assombrado com a epidemia causada pelo COVID 19 que devastou a China. No entanto, somente no mês de março fomos surpreendidos com o anúncio de que a pandemia havia chegado ao Brasil. De início todos ficamos obviamente muito apreensivos, mas só precisávamos nos cuidar ‘evitando’ contato com aqueles que chegavam de viagens internacionais, tendo já então como foco principal a Itália, que se encontra no auge dos danos causados pelo coronavírus. O Brasil já estava com seus dias contados para entrar no segundo estágio da epidemia, onde passaríamos a adquirir a doença não mais somente daqueles que chegavam do exterior, mas sem que pudéssemos identificar a fonte de contágio. Na terceira semana de março constatamos que precisávamos entrar em quarentena ou a situação ficaria pior do que na Itália.

O povo brasileiro entrou em choque ao receber a notícia de uma quarentena que teria inicialmente 14 dias. Inicialmente houve o choque do pânico, depois a relutância em lidar com um confinamento induzido. Lembrando que o Brasil por toda a sua extensão foi lentamente sendo envolvido nessa realidade, cada cidade com sua situação e questões específicas, tomou as providências apropriadas a resolução de seus problemas. Mas algumas características nos unem, em medidas diferentes, é claro, mas após alguns anos de estrada por esse Brasil afora, me permitiram observar que o brasileiro é um povo de contato presencial ainda muito forte, que tem uma necessidade imensa de se comunicar, apesar de todas as dificuldades que envolvem um processo de comunicação. O interessante é que apesar de uma grande necessidade de se comunicar encontramos inúmeros problemas com a comunicação, seja entre as famílias, no âmbito do trabalho ou nos demais grupos sociais. A meu ver se esta é uma das principais características do nosso povo, deveríamos ser experts no assunto, mas não lideramos este rank, definitivamente há uma quantidade de conflitos que poderiam ser evitados a partir de uma boa capacidade de se comunicar.

O coronavírus nos obrigou a ficar em casa numa tentativa do governo brasileiro de controlar a epidemia para tentar evitar que tenhamos no Brasil uma tragédia coletiva, pois nosso sistema de saúde não conseguiria atender as demandas de uma epidemia desse porte e devido as nossas inúmeras questões sociais os danos seriam devastadores.

A quarentena obrigou o brasileiro a parar em casa e se deparar com suas questões intrapessoais, com a complexidade das famílias latinas de um país dividido politicamente com opiniões extremadas onde a direita reassumiu o poder após 14 anos de um governo de esquerda, defendido maciçamente pelas gerações X e Y em contraposição as gerações de Z em diante que demonstra defender a esquerda em sua maioria. As divergências de opiniões no cenário político brasileiro têm chegado as nossas clínicas de forma tão contumaz que algumas rupturas familiares até hoje não puderam ser costuradas. Agora frente a essa epidemia talvez possam ser revistas.

Outra questão que nos cerca é a capacidade criativa do brasileiro, que é tão flexível que já contando com isso, tende a não se planejar e consequentemente não se organizar para situações inesperadas. Nessa hora o famoso ‘jeitinho brasileiro’ corre nas veias, mas desta vez pegou a todos de surpresa e gerou muito stress, ansiedade e uma gama absurda de problemas.

Repentinamente passamos a trabalhar home office, sem sequer termos as condições adequadas para isso. Embora tenhamos uma necessidade absurda de nos comunicarmos informalmente, o hábito de trabalhar de casa ainda entrou há pouco tempo em nossa cultura, quando muito fazendo parte da classe alta e média alta.

O brasileiro por ser muito social, e temos aí diversas explicações para isso, mas uma importantíssima é o clima, pois somos um país tropical, onde o calor varia no verão em torno dos 40 graus, sair de casa, entrar em contato com a natureza, também faz parte da nossa cultura. A difícil tarefa que vem pela frente é cumprir a quarentena e passar por esse período de forma a evitar um caos coletivo, tanto no aspecto pessoal quanto no coletivo. Aliás se somos simultaneamente tão focados no social precisamos também nos focar no coletivo, o que no mínimo é uma incoerência.

Mas a pergunta que não quer calar é o que fazer numa quarentena para que esse período seja de reconstrução pessoal e social? Como não enlouquecer passando o tempo necessário, que ainda não sabemos qual é, nessa quarentena? O que virá pela frente? Como e onde pretendo estar quando isso tudo passar? Como me preparar para isso? O que posso fazer agora?

Embora as respostas sejam individuais e na maioria das vezes profundas, elas precisam nos nortear para que não percamos os elos com a realidade, nos auxiliando também a lidar com nossas angústias e ansiedades.  A medida em que planejamos nosso futuro, nos sentimos mais seguros e preparados para lidar com os diferentes cenários e nossos medos se diluem. Então, mãos a obra, pois além de por os hobbies em dia, é um bom tempo para reorganizar a vida e pensar nas grandes possibilidades futuras com tempo suficiente para se preparar para enfrenta-las. Então é hora de combater nossos medos não mais desafiando o vírus, mas nos preparando para que não tenhamos mais que nos adequar tão abruptamente a ele.  Precisamos lembrar que mente sã, corpo são! Logo essa é uma das possibilidades para aumentar nossa imunidade e nos fortalecermos os suficiente para enfrentar cada desafio da vida.

O dia 10/10 foi dedicado ao debate sobre a Saúde Mental, entretanto, a Organização Mundial de Saúde afirma que não existe definição “oficial” de saúde mental.

Então, como entender o que é saúde mental? Só nos resta pensar que ela pode ser inferida a partir da capacidade de um indivíduo de apreciar a vida, buscando equilíbrio ao realizar seus deveres e prazeres. É comum que nem tudo o façamos nos traga prazer, mas a capacidade de lidar com frustrações, resolver problemas diários, envidar esforços para superar transtornos rotineiros, dentre tantas questões que nos afligem, nos permite desenvolver resiliência psicológica.

Saúde mental engloba o equilíbrio emocional entre o patrimônio interno e as exigências ou vivências externas, permitindo então que tenhamos capacidade de administrar a nossa própria vida e as emoções dentro de inúmeras variações, sem, contudo, perder o valor do real e do precioso.

Ter saúde mental é ser capaz de ser sujeito de suas próprias ações sem perder a noção de tempo e espaço, vivendo a vida na sua plenitude máxima, de forma contextualizada ao ambiente social.

Saúde Mental significa estar de bem consigo e com os outros, aceitando as exigências da vida. Portanto, é fundamental saber lidar com as boas emoções e também com as desagradáveis: alegria/tristeza; coragem/medo; amor/ódio; serenidade/raiva; ciúmes; culpa; frustrações. Sabemos que não somos tão lineares assim, e que, muitas vezes, nem nos damos conta do nosso desequilíbrio, sendo interessante nos conhecermos e sermos capazes de reconhecer nossos limites para solicitar ajuda quando necessário.

Alguns critérios podem ser identificados como critérios de saúde mental:

  1. Atitudes positivas em relação a si próprio,
  2. Crescimento, desenvolvimento e auto-realização,
  3. Integração e resposta emocional,
  4. Autonomia e autodeterminação,
  5. Percepção apurada da realidade,
  6. Domínio ambiental e competência social.

Na falta da saúde mental, nos perguntamos se estamos com um transtorno mental, mas os transtornos são caracterizados por uma combinação de pensamentos, percepções, emoções e comportamento anormais, que também podem afetar as relações com outras pessoas.

Há uma variedade de transtornos, tais como a depressão, o transtorno afetivo bipolar, a esquizofrenia e outras psicoses, demência, deficiência intelectual e  transtornos de desenvolvimento.

Os transtornos mentais vêm crescendo assustadoramente, devendo passar a ser a segunda causa de afastamento do trabalho no mundo, até 2020, com uma taxa de crescimento de até 15%, segundo a OMS. Os transtornos mentais e comportamentais são universais, frequentes e atingem ¼ (um quarto) da população em algum momento da sua vida, afetando pessoas de todas as nacionalidades e sociedades, faixa etária, gênero, classe social, setor industrial, alcançando populações tanto de zonas urbanas quanto rurais. Cerca de 10% da população adulta sofre de algum transtorno mental ou comportamental, impactando as sociedades do ponto de vista econômico, afetando o padrão de vida das pessoas e de suas famílias.

A sociedade precisará passar por muitas mudanças e adaptações para lidar com essa gama de doenças psíquicas que já estão batendo a nossa porta. Portanto, ações preventivas precisam ser adotadas com máxima urgência.

O cinema estreou recentemente o filme “O coringa”, que abordou brilhantemente o sofrimento psíquico que fundamenta a estruturação da psiqué humana.  Arthur Fleck ao citar que “A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse”, sintetizou brilhantemente, a dificuldade da sociedade em lidar com o doente mental, impelindo-o a apresentar um comportamento socialmente condizente com o meio, negando assim, a doença mental.

Mais do que nunca, precisaremos cuidar de nossa saúde mental, para entendermos e apoiarmos os que apresentam transtornos mentais. O que precisamos fazer para mantermos nosso equilíbrio físico, mental e espiritual? Como sujeitos que se constituem a partir de uma subjetividade, os caminhos devem ser trilhados apropriadamente por cada um, mas o pressuposto básico é o aforismo grego ‘Conhece-te a ti mesmo”, o que deve se dar a partir da psicoterapia.

Dra. Adriana Gomes de Souza.Dra
CRP 5/16674