Isolamento social: psicóloga diz como cuidar da saúde mental

Especialista dá dicas de como aproveitar de forma útil este tempo de quarentena sem causar danos ao emocional

Denise Claro
Da redação
Artigo Canção Nova de 27-03-2020.

Em meio à pandemia de coronavírus, muitos países adotaram o isolamento social como estratégia para desaceleração do contágio. É preciso ter cuidado, especialmente, com as pessoas idosas e com comorbidades, que são afetadas pela doença de forma grave. Desde semana passada, no Brasil, a orientação é de todos que podem fiquem em suas casas, a fim de que o contágio possa acontecer de forma a “estreitar a curva”, e o sistema de saúde possa dar conta de atender a quem necessitar.

Com a medida, os brasileiros e suas famílias têm enfrentado longos dias de isolamento social, a chamada “quarentena”. Mas como viver bem este tempo sem se deixar levar pelo ócio e pelo sentimento de improdutividade? Além disso, como fazer bom uso da tecnologia, para estreitar laços entre os que estão distante, sem ser atingido de forma negativa pela avalanche de informações que chegam a cada minuto sobre a doença?

Adriana Gomes, psicóloga./ Foto: Arquivo Pessoal

A psicóloga Adriana Gomes lembra que o homem já nasce em uma sociedade, e que é difícil ficar longe das pessoas e grupos aos quais pertence. Quem está sozinho em casa pode sentir mais essa solidão.

“Ao nos isolarmos, precisamos nos abster desse contato físico social, o que nos causa em geral um certo incômodo. Uns se impactam mais do que os outros dependendo das características de personalidade de cada um”.

Adriana lembra que o contexto social atual leva pais a trabalharem muito durante o dia, somente estando em casa à noite, e com crianças e adolescentes que transitam pela casa. Em um confinamento em família, podem haver desafios.

“Em geral, na rotina da vida familiar brasileira, as crianças e os adolescentes transitam mais pela casa, enquanto os pais só a frequentam em raros momentos. Não estamos acostumados a permanecer em casa em grupo. Se a família não tiver laços afetivos muito sólidos e relacionamentos bem resolvidos com relação aos papéis, nesse momento de grandes incertezas e medos, a maioria das pessoas tende a acirrar as questões mal resolvidas. Em contrapartida, esse período pode ser excelente para estreitar os laços. É hora de ter lazer em casa e essa pode ser uma boa oportunidade para ressignificar o “lar”.”

A especialista afirma que as coisas mais simples em família são as que produzem memória afetiva. É o cheiro da comida da avó ou da mãe, o dia em que se arruma a casa cantando e por aí vai. Alguns momentos são deliciosos de lembrar, como olhar os álbuns de família, reorganizar juntos os espaços, cozinhar, pôr à mesa, assistir juntos à TV, a um filme ou a uma série, jogar um jogo de tabuleiro ou ler um livro junto com alguém.

Ana Luiza Siniegui é casada e mãe de duas crianças pequenas. O marido têm saído para trabalhar, e ela procura viver as orientações, só saindo para o necessário, como comprar fraldas e comida. Em casa, com as crianças, neste período de maior cuidado, têm tentado ocupá-las com atividades em família:

“Percebi que minha filha (de 4 anos) precisaria de atividades para trabalhar letras, formas, traçados, além da concentração e disciplina. Desde o segundo dia, já iniciei com Ana Clara essas atividades no período da manhã e da tarde. A rotina é fundamental para criar um clima de estabilidade, apesar de todo caos ao nosso redor.”

Ana Luiza explica que, ao longo do dia, busca ler com a filha, e incentivá-la a pintar, cantar, dançar, brincar com jogos e massinha, mas o que mais a encanta é perceber, na pequena, a observação.

“Vejo que minha filha está atenta ao meu ritmo de trabalho em casa: cuidar da casa, lavar a louça, arrumar os quartos, lavar as roupas e tantos serviços, e ela se dispõe a me ajudar. Se, por acaso, o irmão tirou o livros das prateleiras, ela organiza para mim sem ao menos eu pedir. São estes afazeres da vida prática que me encantam e que me ajudam a ter um pouco de esperança!”

Sobre o filho menor, menino e mais ativo, a mãe explica que precisa jogar bola, rolar na grama do jardim, e brincar de esconde-esconde, cantigas de roda etc.

Isolamento e Tecnologia

Os filhos de Ana Luiza, de 4 e 2 anos, em atividades em casa./ Foto: Arquivo Pessoal

“Deixar as crianças o tempo inteiro na televisão não é bom, por inúmeros motivos: cria uma cultura da passividade, receber as informações e pouca interação, gerando, muitas vezes, dificuldades de concentração e atenção por causa dos excessivos estímulos. Organizar a hora na TV ou na internet e acompanhar esses momentos é fundamental para que a criança perceba que mais importante do que fazer coisas é estar com as pessoas.”

Ana Luiza ainda ressalta que o uso da tecnologia, em sua opinião, pode ajudar e atrapalhar, não só as crianças, mas também os adultos. “Cabe a nós a prudência de escolher bem. Ajuda na busca de informação, leitura de livros PDF, atividades diferenciadas para os filhos e assim por diante. Mas também atrapalha com as falsas informações, a cultura do medo. Quando me percebo agitada vendo as notícias no celular, procuro rezar e pedir a Deus o dom da temperança. Tenho certeza que esse tempo irá passar e, com a graça de Deus, sairemos mais fortalecidos e fraternos.”

O carioca André Lemos está em isolamento social há 15 dias, pois é artista, e os trabalhos já estavam diminuindo. “Eu já estava em casa praticamente, mas podia ainda fazer as coisas na rua com mais liberdade, exercitar-me, ir ao banco etc. Nos primeiros dias, após a orientação do isolamento, foi muito mais difícil, porque a gente vê a coisa começar a piorar, piorar, o isolamento mais necessário, o comércio fechando cada vez mais, isso dá um certo apavoramento.”

André Lemos, em momentos de vídeo chamada com amigos e com sua mãe./ Foto: Arquivo pessoal.

André conta que ficava atento às notícias o tempo todo, pela internet e tv, e percebeu que isso o deixava ansioso e angustiado. A partir dessa observação, passou a escolher dois momentos do dia para se informar. No restante do tempo, cuidar da sua mente e do seu lado emocional.

“A tecnologia me ajuda muito, tem me salvado, inclusive. Ver um vídeo no Youtube, uma série. Sou artista, e vejo cada vez mais a importância da cultura para a sociedade como um todo. Se não existisse cultura e arte, a minha profissão, as pessoas não teriam como se distrair em um momento como esse. Também a tecnologia nos permite ligar para as pessoas por vídeo, por exemplo, falo com amigos, com grupos de amigos, com minha mãe por vídeo. Cada ligação que eu faço, sinto-me mais fortalecido para continuar bem nesse tempo.”

 

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Dra. Adriana Gomes de Souza.
CRP 5/16674