Sobre a Pandemia do covid-19

Sou Luciana Janeiro, psicóloga e sanitarista. Tenho sido evocada nos últimos quinze dias para dialogar sobre a situação da pandemia do novo Coranavírus. Para começar é importante lembrar que se trata de uma situação inédita no mundo! E, como tudo que é novo ainda não temos muitas respostas e até mais perguntas. As colocações que farei não vão na via de prescrições, entendo que elas nem existem, mas, me proponho, como profissional de saúde, como um dever ético, comprometida com o cuidado, ser uma fonte de informação segura e estou disponível a ouvir e compartilhar informações pertinentes.

O que compartilho hoje é produto de certo conhecimento acumulado somados a leituras de artigos que estão sendo produzidos, documentos oficiais, lives informativas de órgãos de saúde e escuta das pessoas próximas, enfim, tudo que tenho visto em tão breve tempo.

O mundo vive um grande colapso e as consequências ainda não são todas mensuráveis. Essa situação inédita nos faz ter contato com nossa impotência enquanto ser humano. Que seja uma pessoa branca, rica e que viva rodeada de luxos não está protegida de um vírus que pode ser mortal para você e/ou seus entes querid@s. O covid-19 não discrimina classe social, cor, formação acadêmica. No Brasil, as populações vem sendo vitimadas por anos, como os negros nas periferias de todo o país. Esse fato não tem mobilizado políticas públicas de enfrentamento a essa situação. Quais são as vidas que importam? O novo coronavírus coloca todas as vidas em risco de morrer e todas importam.

As informações chegam de forma veloz em todos os canais de informação, e também podem nos trazer uma sensação de medo, medo do inesperado, medo de morrer ou ainda evitação de acreditar no que está acontecendo. Junto a isso, ainda chegam as falsas informações, as já famosas fakenews.  Há uns dias recebi a ligação de uma conhecida porque a mãe dela estava desesperada, devido a um áudio recebido via rede social. Primeiro essa senhora ouviu uma mensagem que informava que iriam suspender as aposentadorias e a filha desmentiu essa falsa notícia. Horas depois, a senhora recebeu outro áudio dizendo que os mercados iriam ficar desabastecidos e que as pessoas precisavam fazer estoque. Imaginem o estado emocional que a pessoa ficou, pois não tinha condições financeiras para ir ao mercado fazer seu estoque. Sua filha me ligou porque supôs que eu teria uma informação mais confiável e, de certo, logo desmenti o áudio, mas foi difícil contornar toda a situação já instalada. A mãe dela já estava se sentindo transtornada, pressão arterial se elevou, ela foi medicada (tem hipertensão). Isso é muito grave! Esse foi só um exemplo de uma situação concreta que ocorreu comigo, outras devem estar acontecendo por aí.

Tão importante hoje é nos demonstrarmos solidários e cuidadosos uns com os outros, uma notícia falsa, além de trazer mais sensação de insegurança, elevar níveis  de ansiedade, pode ter consequências gravíssimas.

O modo como as pessoas reagem a um momento tão inédito na vida de todos ainda estão sendo pensados. Contudo, através de eventos como desastres naturais, guerras, situações inesperadas e adversas quem irrompem a vida, já têm sido estudadas. A partir dessas experiências que trago algumas informações.

Tais documentos explicam que diante as distintas situações terríveis de crise que ocorrem nos diferentes países, nas distintas comunidades pelo mundo, pessoas podem se sentir amedrontadas, ansiosas, anestesiadas ou até mesmo insensíveis. As manifestações podem ser leves e transitórias e outras mais severas, mais intensas e duradouras. Alguns fatores podem influenciar a forma em como as pessoas lidam com o evento: apoio social e/ou familiar durante a vida; histórico pessoal e familiar de saúde mental; cultura e tradições pessoais; idade; vulnerabilidade social; vivência anterior de situação de crise; pertencimento étnico racial.

Fomos interrompidos de forma abrupta de nossos afazeres diários, dos encontros. Nossa cultura brasileira é marcada pela sociabilidade, gostamos de abraços e afagos, de estar próximos, de contatos físicos. De uma forma mais geral, alguns estados emocionais podem se intensificar com restrição da convivência, da quebra da rotina habitual e, de certo, algumas pessoas estarão mais vulneráveis que outras.

– O isolamento de presença e convivência social tem aspectos diferentes para as pessoas. Estamos privados dos abraços, beijos, confraternização, dos encontros pele a pele mas está ocorrendo uma maior socialização virtual. Só que esta se reserva para quem pode prover de internet 4g ou banda larga. Além atingir apenas quem já utiliza as mídias sociais, o que não é realidade de todos, como muitos idosos.

Com apoio, cuidado, solidariedade podemos atuar para reduzir os efeitos do isolamento social.

– Sensações de medo, de insegurança, de abandono, letargia (sem ter vontade de fazer as coisas), ou também se envolver em inúmeras tarefas sem se conectar com a dor ou sofrimento.

– Ficar parado em frente à TV recebendo apenas informações da pandemia tende a paralisar, não trazer perspectivas. Reduzir o fluxo de informação pode ser uma via de autocuidado. Eleger um horário para acessar as notícias sobre a pandemia, não focar apenas nisso o todo o seu dia.

– Criar uma rotina, manter atividades que já que fazia e, se possível, incluir novas.

– Buscar falar com alguém, ligar e não apenas enviar mensagem. Fazer conexão com nossos sentidos, como ouvir a voz de outra pessoa.

– Nossos afetos não estão isolados, estão nas memórias, na voz, na música, nas fotos, no cheiro do café, no acenar da janela, nos mínimos detalhes da vida. Podemos nos atentar mais a eles nesse momento.

– Para tentar minimizar o medo, ansiedade, podemos buscar na caixa de ferramentas o que já se fazia antes, mas de uma forma reinventada. O que te trazia sensação de calma? O que você já conhece? Ouvir uma música, escrever, fazer exercício, relaxamento, respiração, dormir, conectar a espiritualidade. Começar pela que já é sabido tende a trazer mais conforto e segurança.

– Buscar informações seguras das fontes oficiais, não acreditar em tudo que receber  pelas redes sociais. Tentar verificar a veracidade das informações antes de repassá-las, pois uma notícia falsa pode atingir alguém de forma desagradável e grave.

Em especial sobre as crianças:

– Podem sentir medo, evitar falar, negar, ter dificuldade de se expressar. Crianças pequenas, até uns 6 anos podem manifestar suas emoções não pela via da fala, podem recusar a alimentação habitual, chorar por situações simples, brigar muito com os irmãos, fazer “birras” com mais frequência, voltar a fazer xixi na cama ou recuar no desfralde, enfim, distintas manifestações não verbais. Essas situações podem sinalizar algum questão emocional que esteja passando no momento.

– Converse com as crianças sempre! Não importa a idade, converse! E se ficar difícil, não esconda suas emoções, elas aparecem de alguma forma e pode ser pela via da violência, o que é prejudicial para a relação de vocês. Se tiver vontade de gritar, grite junto com sua criança da janela de casa, da porta, deixar sair é importante!

Tem outro aspecto tão importante quanto o cuidado individual, trata-se da coletividade. Quando uma liderança política, anuncia ações contrárias as medidas sanitárias que estão sendo veiculadas por profissionais de saúde, pesquisadores e cientistas, gera maior sensação de insegurança e as pessoas ficam perdidas em que orientações seguir. Cria-se uma divergência de conduta, fazendo com que as pessoas fiquem confusas, mas ao mesmo, tempo autorizadas a não seguir todas as recomendações veiculadas diariamente. A produção de mais insegurança em um ambiente já tão instável conduz ao descuido da coletividade.

Na contramão disso, realizar ações que contribuam para o cuidado coletivo, fazer doações (bens materiais, alimentícios etc), mobilizar pessoas e grupos a realizar atividades de compras para quem não pode sair de casa, partilhar a internet para que outros tenham acesso a socialização digital, inúmeras iniciativas têm sido criadas para reduzir os impactos psicossociais desse período de quarentena. Essas ações são benéficas para produzir a sensação de segurança e cuidado tanto no âmbito coletivo quanto no individual.

Referências Bibliográficas

Psicologia de emergências e desastres na América Latina: promoção de direitos e construção de estratégias de atuação / Conselho Federal de Psicologia. – Conselho Federal de Psicologia. Brasília: CFP, 2011.
Organização Pan-Americana da Saúde Primeiros cuidados psicológicos: guia para trabalhadores de campo. Brasília, DF: OPAS, 2015

Luciana Janeiro Silva
Psicóloga e Sanitarista
CRP: 05/37932