Com o que fantasmas estamos lidando nessa epidemia?

O período de pandemia requer a manutenção do isolamento social para a preservação da vida, visto que estamos lidando com uma virose em que a velocidade de contágio gera um gargalo no sistema de saúde que não comporta o atendimento simultâneo dos afetados pelo COVID 19. Durante esse período precisamos nos cuidar mantendo a higienização cuidadosa do ambiente em que vivemos, assim como o uso de máscaras ao sairmos de casa, visto que o contágio do vírus acontece através dos olhos, nariz e boca. Sabemos também que o COVID 19 permanece por dias em algumas superfícies. 

Diante da epidemia algumas mudanças foram necessárias e nos surpreenderam por requerer uma adequação imediata, para as quais não estávamos muitas vezes preparados.

 Na impossibilidade do contato presencial como podemos viver?

Ficar em casa envolve inúmeras mudanças, dentre elas trabalhar em casa, solicitar trabalhos online, solicitar e realizar entregas em casa, aumentando muito o uso da tecnologia. A grande questão é que não estávamos preparados para isso. A maioria além de não estar familiarizada com o uso da tecnologia também não tinha ambiente adequado nem expertise para a realização do home office, assim como um despreparo para a realização de delivery, dentre outros serviços. O fato de estarmos habituados a vida presencial nos surpreendeu com a necessidade de viver numa realidade virtual.

Além dessa imersão súbita na vida virtual, experimentamos também o confinamento social, tendo nossa liberdade de ir e vir reduzida e limitada. Ocorre que as respostas comportamentais são diversas, visto que cada indivíduo age de forma diferente diante dos estímulos recebidos, baseados em suas histórias de vida, em seus conflitos internos, e principalmente, na forma como cada um reage a frustração e ao medo.

O medo é o pano de fundo dessa epidemia, pois apesar de termos inúmeros casos de recuperação, também temos obstáculos bastante relevantes ao tratamento. Dentre eles, o desconhecimento científico do vírus, a inexistência de uma vacina ou medicação para um tratamento eficaz e o alto índice de mortes devido a sobre carga dos sistemas de saúde bem como as complicações consequentes a doenças pré-existentes.

Estamos lidando com o medo da morte, que por um lado nos limita a ter atitudes que comprometam a nossa vida, fazendo com que evitemos assim as situações de perigo. Tais situações fazem com que nosso estresse se amplie para que tenhamos as reações adequadas a preservação da vida. Entretanto, passamos também por uma privação de vida presencial, consequentemente da oxigenação das relações, tanto conosco quanto com o outro. A falta do contato ou a restrição do contato com o Outro em nossas vidas, gera uma perda de referencial importante para a manutenção do laço social. Através do laço social nos estruturamos psiquicamente, pois a forma como elaboramos as nossas vivências constrói nossa história, visto que é através do que falta, que buscamos preencher nossos vazios. Neste momento lidamos com vários vazios, que certamente irão se deslocar continuamente à medida que os preenchermos. São essas possibilidades que nos permitem a elaboração de nossa psiqué.

Dra. Adriana Gomes de Souza.Dra
CRP 5/16674